25 de março de 2012

Opinião | De boca em boca | Por Tiago Corrêa


Cheguei ao Socaldinho Camarão, em Boa Viagem, um pouco depois das 13h, horário marcado no evento do facebook para o beijaço. O protesto ocorreria como reação à discriminação sofrida por um casal de namoradas no estabelecimento, constrangido quando trocava beijos e carinhos.
Após terem registrado denúncia, as mulheres agora aguardam a conclusão do inquérito policial, mas a história delas, contada, recontada e compartilhada tantas vezes pelas redes sociais foi suficiente para revoltar e, ainda que de forma um tanto dispersa, reunir homens e mulheres para realizar um ato de repúdio a homofobia promovida pelo bar.

Logo ao me deparar com a parte da frente do Socaldinho, a surpresa. Bolas, fitas e penduricalhos nas cores do arco-íris enfeitavam o local. Um cartaz pendurado na frente afirmava: “O Socaldinho apóia o dia do beijo”. No entanto, o letreiro luminoso, que identificava o bar, havia sido retirado, dificultando a localização daqueles que não o conheciam (e, quem sabe, uma eventual identificação rápida nas fotos que poderiam ser tiradas). A segurança parecia ter sido reforçada, com quatro homens-armários na entrada. As bebidas eram servidas apenas em copos de plástico. E um fotógrafo e um câmera registravam tudo que se passava.

As pessoas que pareciam chegar para o protesto dividiam-se entre a praça logo a frente e o interior do bar. A chuva logo providenciou para que todos se reunissem na parte de dentro. Não os seiscentos que confirmaram presença no evento do facebook, claro. Mas um grupo pequeno de trinta a quarenta pessoas no máximo. Militantes dos movimentos LGBT, estudantis,  ou de suas indignações cotidianas. Estavámos o Gema, o Instituto Papai, o Leões do Norte, a Aneel, dentre outros. Todos e todas nós, inicialmente, um pouco desnorteados quanto ao que, como e quando fazer.

Bandeiras do arco-íris forraram as mesas, alguém sugeriu que nos beijássemos às 15h, discutiu-se quem poderia fazer uma fala pública. E os beijos estalavam por vários cantos do bar. Manuela Alves, do Leõs do Norte, explicou em voz alta o objetivo do protesto. Aplausos, gritos de guerra: “A nossa luta é todo dia, contra o machismo, o racismo e a homofobia”. Mais falas, e o som de um carro próximo se levanta para abafar. Os garçons distribuem rosas brancas aos manifestantes. Uma cliente se exalta com a cena.

Ao fim, havia um sentimento entre alguns de indignação em relação ao uso decorativo que o bar parecia querer fazer do beijaço. Como se quisessem colorir o preto no branco do inquérito policial, ofuscar um episódio de violência. Além disso, no evento do facebook, sobravam críticas ao não comparecimento daquela multidão que confirmara anteriormente presença.

Seria isso um sinal de fraqueza da ação? De manipulação de um protesto por uma empresa vil e interesseira? Talvez possa se ver dessa forma. Mas, de minha perspectiva, as coisas parecem um tanto diferentes. A tentativa do Socaldinho Camarão em tentar fazer do beijaço um evento no qual se integrava, um “dia do beijo” com tintas de nuance despolitizadas, somadas a preocupação com a segurança e o registro do que se passava, já de cara demonstra que a ação orquestrada via redes socias pareceu produzir algum efeito.

Muito melhor seria ao invés de som alto, a humildade silenciosa da contrição. Em lugar das rosas brancas, uma retratação pública. Mas não estamos no mundo dos gestos nobres. Fosse assim, nem discriminações haveria. Estamos no Brasil da desfaçatez dos preconceitos, que se envergonham em ser assumidos quanto mais são exercidos. Da prática das políticas discriminatórias que para não serem assim nomeadas exigem dos seus praticantes sempre alguma criatividade para recusar sua politização.

E não se pense que aqueles/as contra os/as quais se resistem são burros. Política não é espaço para burrices, ou ingenuidades. Só as há, quando estratégicas. Decorações, cartazes e flores foram, reconheça-se, estratégias no mínimo criativas. Mas utilizá-las significa, mesmo que a contragosto, reconhecer os adversários de um conflito. Mesmo que para negá-los como adversário, ou negar a própria existência do conflito. E, nesse processo, muita coisa se conquista. Ou, alguém tem dúvida, de que nem tão cedo haverá nesse bar outro episódio de homofobia como o ocorrido? De que a alcunha de “homofóbico” paira sobre o bar como uma ameaça a sua imagem e, lógico, aos seus lucros?

Essa conquista parcial e provisória, como, aliás, todas as conquistas de um processo político longo e duradouro de resistência a formas históricas de opressão, não teria sido possível sem a existência das redes sociais. Que são, no entanto, apenas uma dentre as ferramentas disponíveis para mobilização, mas não parâmetro de sucesso ou fracasso das ações políticas realizadas. Se trinta a quarenta pessoas podem sem muita organização prévia produzir algum resultado, é porque há bem mais de seiscentas apoiando.

Não à toa, as conversas entre os/as presentes em fazer dessa ação um processo contínuo nos bares e restaurantes que exercerem atos homofóbicos parecia ecoar uma indignação que ensaiva agora uma outra via de expressão. Dispersiva, porque não baseada numa organização centralizada. Itinerante, porque exige sempre o deslocamento rumo a outros lugares onde formas de opressão homofóbica se atualizam na cidade. Afetuosa, porque baseada nas paixões dos/as militantes e na demonstração pública de seus desejos e amores.