28 de outubro de 2013

Movimento LGBT paraense: uma história de valor | Por Benedito Medrado

Gostaria de parabenizar o jornal “O Liberal” pela publicação, no domingo passado (27/10/2013), da excelente carta do movimento LGBT paraense intitulada “Liberdade LGBT Já”, de autoria do Grupo de Homossexuais do Pará (GHP), Grupo de Resistência de Travestis e Transexuais da Amazônia (Greta), Comitê de Artistas e Jornalistas Arte pela Vida.


Tenho pesquisado o campo de estudos sobre gênero e sexualidade, há mais de uma década e, recentemente, iniciei meu pós-doutoramento tendo como foco as narrativas e memórias do Movimento LGBT nas Regiões Norte-Nordeste do Brasil, na sua interface com o movimento espanhol. Não à toa, elegi Belém como um dos lócus desta pesquisa dada sua relevância, expressão e legitimidade.

Manifestações como a Festa da Chiquita (que fez 35 anos e que talvez seja o mais antigo evento político-cultural LGBT em nosso país), as intervenções teatrais do Grupo Cena Aberta (nas décadas de 70 e 80), os exuberantes e criativos shows de Lis Babeth Taylor (na década de 90), as Paradas do Orgulho LGBT de Belém  (desde 2002) e o recente espetáculo “Além do arco-íris” (que passeia pelas memórias do movimento LGBT local, nacional e mundial), entre outras intervenções político-culturais, certamente contribuem para dar visibilidade a uma parcela da população, excluída e marginalizada. Esta população certamente se baseia em princípios e produz performances que certamente distam da expectativa de uma sociedade heteronormativa e classista. Este talvez seja seu maior valor: o de resistência a qualquer forma de opressão e violência, especialmente a simbólica.

Por sua solidez política, criatividade e indisciplina, todo reconhecimento que puder ser feito aos/às militantes que integram o movimento LGBT paraense é importante e necessário. Toda crítica infundada, moralista, que ignore a seriedade deste movimento e a importância da cultura e do respeito à diversidade como estratégia política deve ser fortemente enfrentada. Parabéns Belém, pelo movimento LGBT que tem!


CARTA PUBLICADA PELO “O LIBERAL” DIA 27/10/2013
Por Coordenação da 12ª Parada do Orgulho LGBT de Belém:
Grupo de Homossexuais do Pará, Grupo de Resistência de Travestis e Transexuais da Amazônia, Comitê de Artistas e Jornalistas Arte pela Vida

Liberdade LGBT Já!

Há 12 anos realizamos a Parada LGBT de Belém, com toda a sua característica de deboche, sarcasmo, alegria, desinibição e outras expressões de liberdade que nos são negados durante o ano inteiro. Não é uma Parada Gay, como muitos ainda rotulam e insistem em chamá-la. É uma manifestação que reúne lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e também heterossexuais, reúne pessoas que vivem e convivem em sociedade, cotidianamente, tão iguais como qualquer outro ser humano.

Nossa manifestação é construída meses antes, com reuniões, encontro de lideranças, articulação de parcerias, captação de recursos, negociação da temática, enfim, muitos outros debates que fogem à realidade da maioria da população que se identifica como heterossexual. Não queremos convencer ninguém de que somos melhores ou piores, estamos nas ruas apenas reivindicando o básico, o direito de sermos iguais, nem mais, nem menos. Queremos e exigimos uma sociedade justa onde homens e mulheres tenham liberdade de expressar sua sexualidade de forma democrática e responsável. Não estamos aqui para seguir um padrão heteronormativo, já construído e definido pela maioria. Somos diferentes e nossa maior característica é celebrar a diferença de poder amar alguém do mesmo sexo, poder beijar, acariciar, tocar, sentir o outro como extensão do seu próprio ser.

Infelizmente algumas pessoas não compreendem isto, ou melhor, não querem compreender, não querem respeitar, ou mesmo tolerar nossos comportamentos. Inclusive insistem em desqualificar nossa manifestação como deprimente, obscena, excessiva em todos os aspectos. Ora, estamos na parada LGBT, sobretudo para celebrar o orgulho de sermos o que somos, pois todos os dias temos que, muitas vezes, esconder nosso orgulho, para garantir nossos empregos, nossos estudos, nossas famílias. Sim, a maioria das pessoas LGBT ainda vivem numa sociedade dominada, impregnada de preconceitos e discriminações que insistem em nos deixar nos redutos, no gueto propriamente dito. Não nos é permitido sequer a troca de carinhos entre nossos pares, pois somos alvo de olhares reprovadores, olhares que condenam nossa conduta.

A organização da 12ª Parada do ORGULHO LGBT de Belém vem esclarecer que a nossa luta por cidadania é constante, necessária e fundamental para todas as pessoas, pois se faz necessário a construção de uma sociedade livre, democrática e plural. Se o barulho, a desinibição e a felicidade celebrada em público incomoda é porque estamos fazendo um evento oficial, devidamente licenciado pelas autoridades locais, que não se opuseram em momento algum à nossa caminhada. Muito pelo contrário, são parceiros e colaboradores em todos os serviços solicitados para serem prestados no dia do evento. Nosso evento neste ano trouxe o debate do Estado Laico, de defender a liberdade e o direito sem as amarras do fundamentalismo e a falsa moral estabelecida por algumas instituições seculares. Que em praça pública possamos vivenciar nossas sexualidades, mesmo que alguns se recusem e não se deem a oportunidade de assistir ao espetáculo da diversidade.

Em pleno século XXI nos recusamos de ser taxados de obscenos e imorais. Somos ainda atacados por políticos fundamentalistas, que colocam em primeiro lugar sua fé e esquecem que estão ali para defender o povo. Dão-se ao trabalho de apresentar um projeto que cria uma doença chamada homossexualismo, e, portanto seres que precisam ser curados, serem tratados. Um total desrespeito às normas estabelecidas internacionalmente. Desrespeitam a classe de profissionais que estudam o comportamento do ser humano por anos, para ajudarem e contribuírem na vivência do ser humano em sociedade. Profissionais que ajudam no tratamento de pessoas que nasceram num corpo masculino, mas tem uma mente, uma identidade de gênero feminina, e realizam tratamentos com hormônios, silicone e toda a tecnologia existente para se ver como alguém que possa se realizar enquanto ser humano, enquanto pessoa que luta para poder ser igual, e ser livre para vivenciar sua identidade de gênero e sua orientação sexual.

Queremos um país livre da homofobia, da violência dispensada aos homossexuais, que são atacados, violentados, estrangulados, mutilados fisicamente, porque é este o tratamento que parece ser aprovado por alguns. São as palavras dispensadas em jornais e outros meios de comunicação que incitam e justificam a violência cometida contra a população LGBT. Não somos um bando de “marmanjos engalhados”, somos uma comunidade que existe de fato, paga seus impostos, têm direitos de ir e vir, somos a expressão máxima de que nossa sociedade é composta de gente diferente, sejam estes ricos, pobres, homens, mulheres, bonitos, feios, gordos, magros, enfim a diversidade humana.

Enquanto houver preconceito, discriminação, violência, homofobia dispensados à nossa comunidade, ainda faremos barulho, muito barulho, pois é melhor continuar gritando por socorro do que ficar calados esperando que atirem pedras em nós, ou pior, retirem nossas vidas sem nos dar o direito de amar o semelhante. Gostaríamos que a indignação, revolta e intolerância fossem dispensadas aos homens que matam outros homens e não aos homens que beijam outros homens.